1. Introdução1
Em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia do novo coronavírus, uma emergência de saúde pública de importância internacional, o mais alto nível de alerta da OMS, conforme previsto no Regulamento Sanitário Internacional (Organização Pan-Americana da Saúde [OPAS], 2022).
O novo coronavírus disseminou-se geograficamente de maneira rápida e o isolamento social foi defendido pelos pesquisadores como a principal medida de contenção do vírus. Assim, foi decretado estado de quarentena, orientada pela Lei 13.979/2020 (Presidência da República, 2020). No Brasil, estados e municípios decretaram estado de emergência e foi exigido o fechamento generalizado de escolas, universidades, igrejas, boates, praças e todos os lugares com aglomeração de pessoas (Brasil, 2020).
No cenário acadêmico, o calendário letivo, de início, foi suspenso em todas as universidades e escolas do país. Mas o estado de quarentena, que a priori seria implantado por quinze dias, estendeu-se por meses, alternando entre períodos de flexibilização das medidas e isolamento social rígido. Desse modo, sob forte pressão dos universitários, as Instituições de Ensino Superior (IES) retomaram o calendário letivo de forma remota e foi implantado o que tem sido designado como ensino remoto emergencial. Esse cenário trouxe a necessidade de transferir e transpor metodologias e práticas pedagógicas típicas do modelo tradicional de ensino realizado em sala de aula (Moreira et al., 2020).
O ensino remoto emergencial constituiu novidade e desafio para ambas as partes envolvidas no processo de ensino-aprendizagem, professores precisaram apropriar-se das tecnologias ofertadas para encurtar as distâncias geográficas e os alunos, adaptar-se a estudar em casa, ambiente que, muitas vezes, não é capaz de ofertar as condições necessárias para concentração. Desta forma, o impacto sobre o ensino foi significativo e o desempenho da maior parte da população estudantil sofreu consequências diretas do novo modelo. Por sua vez, este modelo foi implantado com tamanha urgência que as tecnologias foram, muitas vezes, utilizadas em uma perspectiva meramente instrumental, reduzindo as metodologias e as práticas a um ensino apenas transmissivo (Moreira et al., 2020).
Ressalta-se que, na pandemia, estima-se que o quantitativo de pessoas afetadas mentalmente supere o número de pessoas acometidas pela doença pandêmica (Melo et al., 2020). O intenso cenário de mudanças, estresse e preocupação tem sido um relevante fator de risco para o adoecimento psíquico e o desenvolvimento de transtornos mentais (Oliveira, 2020). Desta forma, urge que se discuta o impacto sobre a saúde mental de toda a população, mas, neste trabalho, salienta-se a população que sofreu impacto direto na formação profissional e enfrentou, além do medo do contágio pela doença em si, um intenso processo de adaptação ao ensino remoto, austero cenário de incertezas, bem como quebra ou adiamento dos sonhos e expectativas profissionais.
Diante do que foi discutido, surgiu a seguinte questão norteadora: de que forma o ensino remoto emergencial afetou a saúde mental dos estudantes do ensino superior? Assim, objetivou-se analisar a relação entre o processo de ensino-aprendizagem e a saúde mental de estudantes do ensino superior do Estado do Ceará, Brasil, durante o isolamento social na pandemia da Covid-19.
2. Metodologia
Trata-se de estudo descritivo, exploratório e transversal, com 3.691 estudantes do ensino superior do Ceará, no período de 6 de julho a 10 de setembro de 2020. Foram incluídas nesse estudo todas as instituições de ensino superior, a nível de graduação, do estado, públicas e privadas. Nesse período, o Ceará encontrava-se em isolamento social rígido, sob a Recomendação n.º 036 (Ministério da Saúde, 2020), de 11 de maio de 2020, que continha orientações para implementação de medidas de suspensão total de atividades (lockdown) nos municípios com ocorrência acelerada de novos casos de COVID-19 e taxa de ocupação dos serviços atingindo níveis críticos. A coleta de dados foi realizada em um dos períodos mais críticos do cenário pandêmico e inteiramente de forma virtual, através de formulário criado na plataforma Google Forms.
A abordagem dos estudantes aconteceu nas redes sociais Instagram, Facebook e WhatsApp. A técnica de recrutamento foi a do tipo bola de neve, em que, inicialmente, o pesquisador especifica as características que os membros da amostra deverão ter, e, após isso, identifica uma pessoa ou um grupo de pessoas congruentes aos dados necessários, obtém destas os dados que necessita e solicita que divulguem ou indiquem outras pessoas ou grupos de pessoas com características semelhantes (Costa, 2018). Além dessa estratégia inicial de identificação e abordagem, os pesquisados contactaram as IES do Ceará informando características e objetivos da pesquisa e solicitando apoio na divulgação entre os estudantes.
Adotaram-se os critérios de inclusão: idade igual ou superior a dezoito anos e matrícula ativa em algum curso superior no estado do Ceará. O questionário foi composto pelo perfil sociodemográfico e situacional em relação à pandemia e ao isolamento social e pelo Mental Health Inventory (MHI), desenvolvido para investigação epidemiológica no âmbito do Health Insurance Study da Rand Corporation, que tem como escopo avaliar a saúde mental na população em geral ou específica, na perspectiva bidimensional, incluindo aspectos positivos e negativos (Ribeiro, 2011). Para este trabalho, utilizaram-se os itens específicos relacionados ao contexto ensino-aprendizagem do questionário.
Quanto à análise estatística, utilizou-se a Correlação de Pearson para relacionar o Inventário de Saúde Mental com as seguintes variáveis: a) Satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas estabelecidas pela instituição; b) Condições e acesso à internet durante o isolamento social; e c) Preocupação com a continuidade do curso de forma presencial (Figueiredo Filho y Silva Junior, 2009).
O coeficiente de Pearson é explicado como medida de associação linear entre variáveis, o que permite o estudo da relação entre variáveis quantitativas, como as resultantes da construção de escalas, ou em escala de Likert, utilizando-se do coeficiente de correlação de Pearson R, medida da associação linear entre variáveis quantitativas entre -1 e 1. Quanto mais próximo estiver dos valores extremos, maior é a associação entre as variáveis (Figueiredo Filho y Silva Junior, 2009).
Este estudo é um recorte da pesquisa intitulada “Repercussões da pandemia do novo coronavírus na saúde mental de estudantes do ensino superior do Ceará”, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), conforme parecer 4.152.388. Cujo o relatório técnico e científico encontra-se disponível no observatório de saúde mental e políticas sobre drogas, criado e gerenciado pelo grupo de estudo realizador da pesquisa.
3. Resultados e discussão
3.1 Participação acadêmica e saúde mental
Os estudantes demonstraram satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas estabelecidas pela instituição durante o período de isolamento social. Identificou-se que as respostas foram variadas. Porém, ao somar as respostas de 0 – 5, encontrou-se uma frequência de 1.843 (50%) de insatisfação e, ao somar respostas de 6 – 10, 1.848 (50%) de satisfação.
Ao analisar os dados obtidos, foram observadas relações positivas (r>0) e estatisticamente significativas (p<0,001) entre a Escala global MHI-38 e as dimensões Bem-estar positivo e Distresse, e entre as dimensões primárias e a satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas estabelecidas pela instituição no período do isolamento.
A Tabela 1 mostra a associação entre os resultados obtidos mediante aplicação do Inventário de Saúde Mental e a satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas estabelecidas pela instituição no período do isolamento.
Tabela 1 Relação do Inventário de Saúde Mental com a satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas estabelecidas pela instituição no período do isolamento. Ceará, Brasil, 2020.
10 - Qual o tamanho de sua satisfação em relação à sua participação nas atividades pedagógicas estabelecidas pela sua instituição neste período de isolamento? | ||
Afecto positivo | Coef. Correlação | (r) 0,269(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Laços emocionais ) | Coef. Correlação | (r) 0,194(* |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Perda de controle emocional/comportamental | Coef. Correlação | (r) 0,237(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Ansiedade | Coef. Correlação | (r) 0,208(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3686 | |
Depressão | Coef. Correlação | (r) 0,247(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Bem-estar positivo | Coef. Correlação | (r) 0,267(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Distresse | Coef. Correlação | (r) 0,237(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3686 | |
Escala Global: MHI-38 | Coef. Correlação | (r) 0,260(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3686 |
Nota. * Estatisticamente significativos (p<0,001).
Constataram-se relações positivas (r>0) e estatisticamente significativas (p<0,001) entre a Escala Global MHI-38, as dimensões Bem-estar positivo e Distresse e as dimensões primárias e a satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas estabelecidas pela instituição no período do isolamento. Portanto, conforme Tabela 1, o estado de saúde mental global, as dimensões Bem-estar positivo e Distresse e as dimensões primárias apresentaram tendência para aumentar proporcionalmente ao aumento da satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas no período considerado.
A palavra Distresse deriva do inglês e se refere a sentimentos negativos como aflição e angústia, no caso do MHI-38, investiga-se as manifestações mais comuns do distresse, a ansiedade e a depressão (Ribeiro, 2011).
A participação no ensino remoto depende diretamente de vários fatores para além da capacidade ou vontade do estudante de aderir ao modelo. Assistir às aulas de maneira satisfatória exige que se tenha acesso à internet de qualidade, um computador ou smartphone e um ambiente silencioso e adequado para o aprendizado.
Também se atestou que alguns acadêmicos contaram com internet instável ou acesso limitado à rede de dados móveis, assim como tiveram acesso às aulas por meio de computadores compartilhados com familiares (Tabela 2).
Tabela 2 Relação do Inventário de Saúde Mental com as condições e o acesso à internet no período do isolamento social. Ceará, Brasil, 2020
11 - Em relação as condições e acesso à internet durante o isolamento social, como você classificaria? | ||
Afecto positivo | Coef. Correlação (r) | 0,195(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Laços emocionais | Coef. Correlação (r) | 0,186(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Perda de controle emocional/comportamental | Coef. Correlação (r) | 0,205(* |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Ansiedade | Coef. Correlação (r) | 0,197(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3686 | |
Depressão | Coef. Correlação (r) | 0,176(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Bem-estar positivo | Coef. Correlação (r) | 0,206(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Distresse | Coef. Correlação (r) | 0,204(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3686 | |
Escala global: MHI-38 | Coef. Correlação (r) | 0,215(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3686 |
Nota. * Estatisticamente significativos (p<0,001).
Em relação à Tabela 2, as respostas à questão 11, “Em relação as condições e acesso à internet durante o isolamento social, como você classificaria?”, foram recodificadas de forma inversa para medirem o conceito estudado e facilitarem a interpretação dos resultados.
Verificaram-se relações positivas (r>0) e estatisticamente significativas (p<0,001) entre a Escala Global MHI-38, as dimensões Bem-estar positivo e Distresse e as dimensões primárias e as condições e o acesso à internet durante o isolamento social. Portanto, o estado de saúde mental global, as dimensões Bem estar positivo e Distresse e as dimensões primárias apresentaram tendência para aumentar conforme se tinha melhores condições e acesso à internet durante o isolamento social.
A pandemia constituiu um cenário desafiador para todo o mundo e no Brasil, como supracitado, foi enfrentada tendo como principal medida o isolamento social, em alguns períodos foi adotado o regime de Lockdown, estado emergencial em que apenas os serviços essenciais podiam funcionar, seguindo protocolos rígidos de distanciamento e de higienização (Brasil, 2020).Em todo o país, esse período foi marcado por incertezas, não se tinha tratamento, as instituições de saúde não possuíam leitos disponíveis e planos de contingência ao vírus precisavam ser elaborados e executados em tempo hábil. Com o protocolo de isolamento social, a transmissão de dados por meio digital tornou-se o único meio disponível para as interações sociais e de trabalho na tentativa de simular e restabelecer uma nova forma de normalidade frente à pandemia (Deslandes y Coutinho, 2022).
A interação nos ambientes digitais por meio da internet, no contexto da pandemia, possibilitou a não interrupção completa do contato com familiares e amigos, assim como a continuidade das atividades acadêmicas, repercutindo nos diversos efeitos colaterais que o isolamento ocasionaria na população, como depressão, ansiedade, solidão, maior vulnerabilidade às violências familiares e entre parceiros e possíveis tentativas de suicídio ligadas à ausência da sociabilidade presencial e ao clima social de medo em relação aos desdobramentos da pandemia (Deslandes y Coutinho, 2022).
No entanto, no Brasil, verifica-se profunda desigualdade entre os que tinham os recursos sociais, financeiros e valores sanitários. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), no ano de 2018, foram registrados 14,9 milhões de residências que não possuíam acesso à internet, sendo a maioria que não possui este acesso com renda igual ou inferior a R$940,00 mensais (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2018).
A democratização digital é uma pauta constante e as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), de certa forma, dão a impressão de que todos possuem acesso digital, principalmente, devido ao uso de smartphones. No entanto, tal realidade ainda não é acessível para milhares de brasileiros. O acesso digital é interligado ao grau de instrução e de renda familiar notado de maneira minuciosa durante o período pandêmico e emergencial vivenciado (Reis y Leal, 2021).
Os reflexos negativos de carência de estrutura e acesso digital são sentidos com mais severidade em cidades interioranas, nas quais, na maioria das vezes, o acesso às tecnologias de informações é escasso, estando em evidência as desigualdades sociais presentes em todo país, o que evidencia, também, um novo tipo de exclusão: a digital (Reis y Leal, 2021).
Outrossim, com a democratização do ensino superior, muitos jovens de classe social baixa tiveram acesso às universidades públicas e privadas do país por meio de vários projetos desenvolvidos pela ação governamental (Barros, 2015). Apesar da possibilidade de acessarem e ocuparem esses espaços, não se pode afirmar que as condições de permanência sejam iguais a todos. Com o meio digital sendo tido como única saída para a manutenção do processo de aprendizagem, a exclusão digital dessa população estudantil prejudicou a participação, o desempenho e, principalmente, trouxe ônus para a saúde mental.
Salienta-se, assim, que muitos acadêmicos enfrentaram enormes dificuldades para participar das aulas e manter o desempenho acadêmico. O conceito de desempenho acadêmico não se limita à frequência satisfatória e às boas notas, mas denota do estudante a capacidade de processar e organizar as informações que recebe, de concentrar-se mesmo diante de situações estressantes e de cobranças e de manter um desempenho consistente e estável (Leal et al., 2019). Para alcançar esse ideal, os estudantes enfrentam problemas emocionais, dificuldades financeiras e problemas de adaptação ao meio acadêmico e de conciliação entre as atividades da universidade, o trabalho e outras.
3.2 Preocupações, ensino superior e saúde mental
O período pandêmico, para além do acometimento pela doença em questão, repercute significativamente na saúde mental da população como um todo, ocasionando medo, preocupação, estresse e, muitas vezes, o adoecimento psíquico. As preocupações nesse contexto são inúmeras e, na realidade do ensino superior, evidenciam-se muitas formas. Um estudo realizado na China revela que diante de cenários de calamidade, principalmente no âmbito da saúde pública, normalmente geram nas pessoas medo de adoecer ou morrer, e que a maioria da população apresentará sentimentos de desamparo (Wang et al., 2020).
Quando questionados sobre a preocupação com a continuidade do curso de forma presencial, muitos demonstraram muita preocupação, um total de 1.803 (48,8%) respostas. Ao avaliar as pontuações na escala de 0 – 10, foi notória a demonstração desse sentimento por parte dos estudantes. A preocupação com a continuidade do curso de forma presencial, condições de acesso à internet e satisfação em relação à participação nas atividades pedagógicas durante o isolamento. Demonstrou que os estudantes estão atentos a qualidade do processo ensino aprendizagem. Estes identificaram com suas respostas os principais problemas enfrentados durante o isolamento social e as consequências nocivas que esta crise sanitária provocou no ensino superior no Ceará, Brasil. Gestores de Instituições de Ensino Superior devem planejar ações de reparação para mitigar os danos deixados pela Pandemia do Novo Coronavírus, em especial, pelas provocadas pelo isolamento social.
A Tabela 3 mostra a análise da relação entre as respostas obtidas através do Inventário de Saúde Mental e a preocupação com a continuidade do curso de forma presencial.
Tabela 3 Relação do Inventário de Saúde Mental com a preocupação com a continuidade do curso de forma presencial no período do isolamento. Ceará, Brasil, 2020.
Afecto positivo | Coef. Correlação (r) | -0,101(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Laços emocionais | Coef. Correlação (r) | -0,089(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Perda de controle emocional/comportamental | Coef. Correlação (r) | -0,137(**) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Ansiedade | Coef. Correlação (r) | -0,157(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3686 | |
Depressão | Coef. Correlação (r) | -0,127(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Bem-estar positivo | Coef. Correlação (r) | -0,105(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Distresse | Coef. Correlação (r) | -0,149(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 | |
Escala global: MHI-38 | Coef. Correlação (r) | -0,141(*) |
Valor de prova (p) | 0,000 | |
N | 3691 |
Nota. * Estatisticamente significativos (p<0,001).
Na Tabela 3, verificam-se relações negativas (r<0) e estatisticamente significativas (p<0,001) entre a Escala Global MHI-38, as dimensões Bem-estar positivo e Distresse, as dimensões primárias e a preocupação com a continuidade do curso de forma presencial. Portanto, o estado de saúde mental global, as dimensões Bem-estar positivo e Distresse e as dimensões primárias apresentaram tendência para diminuir com o aumento da preocupação com a continuidade do curso de forma presencial.
Em comparação com o presente estudo, a pesquisa intitulada “Investigando a saúde mental de estudantes universitários dos EUA durante a pandemia de COVID-19: Estudo de pesquisa transversal” mostra que pequena parcela de participantes (n=389) forneceu razões adicionais de resposta livre por trás do aumento do nível de estresse relacionado aos acadêmicos. Quase um quinto dos que indicaram esses motivos (73/389, 18,8%), relataram preocupações financeiras relacionadas à situação acadêmica, como redução de oportunidades de trabalho atuais e futuras (n = 42), aumento da carga para pagar mensalidades e taxas (n = 16), além de impactos na bolsa e no financiamento (n=15). Alguns dos participantes (27/389, 6,9%) apresentaram preocupação com os semestres futuros, como continuar as aulas on-line nos semestres seguintes (n=12), escolher um curso em meio à pandemia (n=10) e retomar as aulas presenciais com riscos persistentes de infecção pelo vírus (n=5) (Wang et al., 2020).
Em congruência aos resultados obtidos por essa pesquisa que evidenciam o medo / a preocupação como uma das variáveis que afetaram diretamente a saúde mental dos estudantes de ensino superior do Estado do Ceará,um estudo de revisão publicado em 2021 e que incluiu trabalhos de diversos periódicos e países identificou nestes que o sofrimento psíquico entre os universitários se manifestou principalmente através do estresse, sentimento de incapacidade frente ao período enfrentado, sensação de constante vigília, medo de perder parentes, amigos, preocupação com a situação econômica além de sinais de ansiedade e depressão, associadas a dores de cabeça frequentes, irritação, isolamento e angústia (Gundim et al.,2020)
4. Conclusão
Foi observada uma semelhança entre o estudo atual e os estudos usados para discussão. Analisou-se a relação entre o processo de ensino-aprendizagem e a saúde mental dos estudantes do ensino superior do estado do Ceará, durante o isolamento social, foi possível perceber que os resultados sugerem que a mudança no modelo de ensino aprendizagem, adotado em virtude do período pandêmico e da única forma de contenção do vírus que se tinha disponível à época, o isolamento social, impactou de forma significativa a saúde mental dos estudantes.
No contexto do isolamento social, atestou-se que melhores condições de acesso às atividades tendem a melhorar o quadro, enquanto o intenso cenário de preocupação com a disseminação do vírus, com a continuidade de seu curso de maneira remota, tornaram o adoecimento psíquico mais expressivo. O estado geral de saúde mental dos estudantes do ensino superior do Ceará foi afetado pelas mudanças no processo de ensino-aprendizagem instaladas em virtude da pandemia. Portanto, cabe às instituições a criação e o fortalecimento das políticas de assistência aos discentes, no âmbito da saúde mental, com projetos e programas que melhorem a qualidade de vida e o rendimento acadêmico dos estudantes.